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TNFD: integrando a biodiversidade na Governança Corporativa

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    VBIO
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Empresas, especialmente as grandes, reconhecidas publicamente, cresceram acostumadas a tratar a natureza como uma externalidade: um plano de fundo para as operações, um custo que deve ser diminuído, apenas um item da lista de Responsabilidade Social Corporativa (RSC).  Essa complacência terminou. A meta 15 do framework de biodiversidade global de Kunming-Montreal deixa claro que as empresas e instituições financeiras devem monitorar, avaliar e divulgar. dependências, riscos e impactos na natureza. A chamada Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) é uma das respostas para esse mercado: mais que uma nova formalidade, é uma estratégia que mostra às empresas onde elas são financeiramente expostas a um colapso ecológico e onde elas podem tomar vantagem. Essa é uma nova e fundamental orientação de como conselhos, investidores e gestores devem avaliar e encarar o valor.  

Dentro do mundo corporativo, considere as implicações: as planilhas e previsões que asseguram sua estratégia supõe que a natureza vai continuar a entregar seus serviços, como água limpa, polinização, fertilidade nos solos, e regulação do clima, pela demanda. Mas essa suposição é o ponto fraco no balanço financeiro moderno. A TNFD e a meta 15 exigem que paremos de fingir que a natureza é um bem ilimitado e que comecemos a contá-la como qualquer outro fator material.

A TNFD: mais que um reporte, um radar

A importância e valor da TNFD está em sua abordagem LEAP, a qual tem caráter recomendatório, que do inglês significa localizar, avaliar, analisar e preparar, o que força as empresas a mapear a natureza, quantificar dependências e impactos, traduzir esses em riscos financeiros e então agir. Isso não é uma repetição da divulgação de informações climáticas, biodiversidade e ecossistemas são locais, contextuais e qualitativamente diferentes de um poluente global com o CO₂. Com LEAP, as empresas são levadas a se perguntar: que partes desse ecossistema é crucial para o meu produto ou cadeia de suprimentos? E o que acontece se falhar? 

A TNFD é a linguagem em comum entre os investidores e gerentes. Se alinha com um movimento maior em direção a um reporte integrado e com tendências regulatórias que tornarão algumas formas de divulgação obrigatórias. Mais importante, transforma exposição em inteligência de negócio. A empresa que usa a TNFD como um radar estratégico pode detectar onde os ativos estão ficando obsoletos, onde na cadeia de suprimentos haverá choque de físico ou regulatório, e onde investimentos regenerativos se tornam competitividade durável. 

Meta 15: Diretriz regulatória para integração da biodiversidade nas estratégias corporativas

A Meta 15 do Global Biodiversity Framework não é uma retórica. Explicitamente chama organizações e atores financeiros para medir e divulgar suas dependências, seus riscos e impactos relacionados à natureza. Na prática, isso significa que reguladores nacionais e investidores globais vão cada vez mais, esperar, e não pedir, que as organizações demonstrem como suas ações afetam e dependem da biodiversidade.  

Para países e mercados que são ricos em biodiversidade, as apostas são altas e as oportunidades maiores. O Brasil, por exemplo, possui uma vantagem comparativa na diversidade biológica que pode ser transformada vantagem competitiva sustentável, se o setor privado abandonar a lógica extrativa e abraçar a bioeconomia que valoriza ecossistemas já existentes do que colheitas de curto prazo A escolha é entre se tornar um provedor de commodities em declínio ou um provedor de serviços regenerativos e de alto valor natural.

Entretanto, um problema comum de executivos é tratar a divulgação como um exercício de compliance: publica um reporte alinhado com TNFD, risca da lista e segue em frente. Mas esse caminho deixa as empresas vulneráveis em pelo menos três aspectos: 

  1. Surpresas materiais: impacto que hoje parece imaterial pode virar uma catástrofe financeira por meio de mudanças regulatórias, litígios ou pontos de inflexão do ecossistema. A insistência do TNFD na “dupla materialidade” ajuda a revelar esse risco dinâmico.

  2. Greenwashing: reportes que escondem danos ecológicos reais prejudicam a reputação e atraem críticas. O mercado irá punir inconsistência entre o alegado e o resultado. 

  3. Perda de oportunidades: empresas que meramente divulgam perdem a chance de incorporar a natureza na alocação de capital, restauração, cadeias de fornecimento regenerativas, e linhas de produtos que respeitam a natureza podem ser a fonte de novas receitas e resiliência. 

Divulgação sem estratégia é vaidade, não governança. A administração deve ir além da questão contábil (como relatar nossos resultados?) e abordar a questão existencial (como nosso negócio depende dos ecossistemas vivos e os impacta? E como isso nos moldará financeiramente no futuro?)

Materialidade vai além da tecnicidade

O TNFD leva as organizações a se envolverem com uma visão maior da materialidade. O modelo de materialidade financeira apenas perguntava se a mudança ambiental afetava o fluxo de dinheiro da empresa hoje. A dupla materialidade vai mais além: se as ações da organização afetam materialmente a natureza e a sociedade, independentemente de um feedback financeiro imediato para a empresa. É aqui que a ética entra. Ignorando que isso não é apenas uma questão contábil, é uma decisão sobre todos os futuros que está disposto a influenciar.

Além disso, a materialidade é dinâmica. O que investidores consideravam imateriais anos atrás pode da noite para o dia se tornar um fundamento importante de ação regulatória e reação do consumidor. Organizações que continuam a avaliar materialidade apenas no modelo anterior correm o risco de sofrerem com cegueira sistêmica. 

Críticas e como respondê-las:

Duas críticas merecem atenção. 

Primeiro, a financeirização da natureza: traduzir ecossistemas em unidades de “capital” acarreta o risco de mercantilizar o que muitas comunidades consideram parentes vivos e bens comuns sagrados. 

Segundo, inclusão: comunidades indígenas e locais frequentemente arcam com os custos dos impactos causados por corporações, eles devem ter uma voz genuína e dar consentimento na avaliação e remediação. 

O TNFD reconhece essas duas tensões, mas não pode resolvê-las sozinho, as organizações devem unir divulgação técnica com governança que respeite os direitos e abordagens participativas. Falhar em fazer isso vai gerar conflitos, prejudicar a reputação corporativa e, por fim, gerar uma reação negativa dos órgãos reguladores.

Executivos devem então adotar uma certa postura: usar as ferramentas do TNFD para identificar riscos multifatoriais, ao mesmo tempo incorporar um processo que respeite o conhecimento tradicional dos povos originários e comunidades tradicionais e a repartição equitativa de benefícios. Isso não é um complemento, é gerenciamento de riscos.

De mitigação para restauração

Se sustentabilidade foi antes sobre “fazer menos mal”, agora, o verdadeiro teste da estratégia é se a organização pode fazer o bem, como restaurar ecossistemas, solos ou nascentes de água. As empresas que adotam estratégias positivas para a natureza podem garantir fornecimento, custos baixos a longo prazo, atrair capital e se diferenciar no meio do mercado. A bioeconomia é uma preposição econômica: florestas em pé, pescarias saudáveis e redes de polinização intactas são ativos com valor composto.

Um checklist prático para executivos que querem liderar, não seguir

  1. Mapeie suas interfaces: use LEAP para identificar os locais específicos onde a natureza importa em suas operações. 

  2. Considere a dupla materialidade: avalie riscos tanto como a natureza afeta o fluxo de caixa, quanto como suas atividades afetam a natureza. 

  3. Se envolva localmente: torne o envolvimento com a população indígena e comunidades locais uma prática interna, nenhuma estratégia de natureza pode ter sucesso de outra maneira. 

  4. Meça o que importa: priorize métricas de resultado (habitat restaurado, recuperação de espécies, melhoras na qualidade da água) acima de indicadores de vaidade.

Sua liderança vai ser julgada pelo que você deixa em pé

A Meta 15 e o TNFD não são reformas confortáveis criadas para deixar as organizações continuarem a fazer o que elas sempre fizeram com melhor relações públicas. Eles são, na essência, uma demanda que o setor privado reconhece sua dependência em sistemas vivos e começa a agir de acordo. A verdade desconfortável disso é: uma empresa que trata a natureza como expansível agora está financiando sua própria obsolescência.

Líderes que entendem isso vão tratar a TNFD não como uma tarefa do compliance, mas como uma estratégia imperativa, uma lente que faz visível passivos ecológicos escondidos em cadeias de suprimento familiares e as oportunidades regenerativas escondidas atrás delas. Aqueles que fazem não vão apenas preservar o valor para os stakeholders, eles vão ajudar a construir condições para prosperidade de longo prazo.

Se você quer continuar prosperando nas próximas décadas comece por se perguntar algo mais preciso do que “como nós reportamos?” Pergunte-se: “como o mundo natural torna o nosso negócio possível e o que faremos quando ele parar de funcionar?” A resposta vai determinar qual organização vai sobreviver e qual vai se tornar uma relíquia de uma era que acreditava que a natureza era gratuita.

 
 
 

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