Povos indígenas e mudanças climáticas: por que eles são parte da solução
- VBIO

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Como a proteção dos territórios indígenas contribui para o combate às mudanças climáticas

No último dia 7 celebramos uma data que é um marco de resistência política e memória histórica. O Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas foi instituído nessa data para lembrar a morte de Sepé Tiaraju, líder Guarani que defendeu seu território contra as coroas de Portugal e Espanha em 1756, seu grito ficou imortalizado: “Essa terra tem dono!”. Atualmente, mais de dois séculos depois, a mesma luta ainda prevalece e se multiplica em mais de 300 povos que resistem no Brasil. A realidade indiscutível é que a garantia de seus territórios é, indissociavelmente, a garantia do futuro do planeta.
Proteção territorial como solução climática
A ciência hoje confirma com dados o que as lideranças dos povos originários afirmam há milênios. Embora representem apenas 6% da população mundial, eles são responsáveis por cerca de 80% da proteção da biodiversidade restante no planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Foi a visão ocidental que, por muito tempo, romantizou ou subestimou a relação indígena com a natureza.
Hoje, a demarcação de terras tem se mostrado a barreira mais eficaz contra o desmatamento. Segundo estudos analisados em um relatório da ONU, na Amazônia brasileira, registram-se que taxas de desmatamento em territórios indígenas demarcados podem chegar a ser 2,5 vezes menores do que em áreas externas. Esses territórios, mais do que “não desmatar”, atuam de forma ativa na regulação do clima: cerca de 34 bilhões de toneladas métricas de carbono são armazenadas em florestas sob manejo indígena na América Latina, superando todas as florestas de países como a Indonésia ou a República Democrática do Congo.
Conforme aponta um estudo do Instituto Socioambiental (ISA), as terras indígenas vêm funcionando como verdadeiros escudos contra a devastação, tendo protegido 20% de toda a vegetação nativa do Brasil nos últimos 35 anos.
Reflorestar mentes: o valor do conhecimento ancestral
O desafio que temos agora é superar a ideia de que o conhecimento indígena é somente folclore. Eliel Benites, do Ministério dos Povos Indígenas, explicou para o portal gov.br: é necessário “reflorestar mentes” para construirmos novos valores de sociedade. Para os povos indígenas, a natureza é uma rede de parentesco onde humanos, animais, plantas e espíritos coexistem, longe de ser apenas um recurso a ser explorado. O líder Yanomami Davi Kopenawa, também através do portal do gov.br, nos alerta que a floresta destruída resulta na "queda do céu", uma metáfora precisa para o colapso climático que o mundo começa a enfrentar.
Quem protege a natureza ainda luta para ser protegido
Fica claro que as comunidades indígenas são as melhores guardiãs da floresta, no entanto elas ainda enfrentam contradições. Sendo marginalizados das mesas de decisão onde se define o futuro do clima, os indígenas recebem menos de 1% do financiamento climático. Além disso, estão sempre sob pressão de atividades predatórias como a mineração e grilagem, responsáveis muitas vezes por trazer violências e contaminação para os territórios. No Brasil, a luta das comunidades indígenas tem diversos fatores, que vão dos direitos básicos de saúde e educação até o direito territorial.
Sociobiodiversidade, justiça climática e compromisso coletivo
A causa indígena não é uma questão de minoria, mas de humanidade. Como resume Sônia Guajajara em uma entrevista, "A mãe Terra é a mãe de todas as lutas". Garantir seus direitos não é um gesto simbólico, mas uma decisão fundamentada em evidências científicas e na urgência climática. A VBIO acredita que a conservação da biodiversidade está diretamente ligada ao reconhecimento e à valorização dos saberes tradicionais, apoiando soluções que integrem proteção ambiental, desenvolvimento sustentável e justiça socioambiental. Fortalecer os povos originários é fortalecer os próprios sistemas naturais que sustentam a vida no planeta.



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