COP17, restauração e sociobioeconomia no Brasil
- VBIO

- há 5 horas
- 4 min de leitura

O Brasil apresentou, na terça-feira (25/08), durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) para 2030. O compromisso prevê recuperar e restaurar mais de 163 mil km², equivalentes a 16,3 milhões de hectares, de áreas degradadas até o fim da década, além de ações de prevenção, conservação e manejo sustentável em outros 3,51 milhões de km² (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); Canal Rural).
Vale registrar que a apresentação formal da meta chega com quase dez anos de atraso: o conceito de Neutralidade da Degradação da Terra foi formalizado pela ONU em 2015, e o processo de submissão das metas nacionais começou em 2017. O Brasil já havia instituído, em 2015, a Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (Lei nº 13.153), que criou a Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD) — órgão que, ao longo desse período, reuniu 19 ministérios, governos estaduais e municipais, sociedade civil e setor privado para construir a meta agora anunciada, em um processo que envolveu 65 instituições.
A meta coloca o Brasil diante de um desafio que vai muito além dos compromissos internacionais: transformar a restauração ecológica em ações concretas nos territórios, com benefícios para a biodiversidade, a segurança hídrica, a produção de alimentos e as comunidades que vivem nessas áreas.
A escala do problema
Segundo o boletim mais recente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), cerca de 18% do território brasileiro é classificado como Área Suscetível à Desertificação (ASD) — uma faixa que se concentra no Semiárido e na Caatinga e afeta, segundo estimativas recentes, cerca de 39 milhões de brasileiros, entre sertanejos, agricultores, povos indígenas e quilombolas (Agência Brasil). Entre 2000 e 2020, a área afetada pela desertificação no país passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de km², um crescimento de 170 mil km², equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas (Agência Brasil).
A Caatinga concentra grande parte dessas áreas suscetíveis e enfrenta pressões adicionais associadas às mudanças climáticas.
Restauração é desenvolvimento
As discussões da COP17 reforçam que combater a desertificação e restaurar ecossistemas não significa apenas recuperar vegetação, é preciso considerar também as pessoas que vivem e trabalham nesses territórios. Povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais de fundo de pasto e agricultores familiares não são apenas beneficiários de projetos de restauração: seus conhecimentos, práticas e formas de manejo são parte importante das soluções para conservar e recuperar os territórios.
Um exemplo dessa integração é o projeto EtnoCaatinga, coordenado pela Embrapa Semiárido em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Irpaa, que reúne comunidades tradicionais e utiliza tecnologias sociais adaptadas às condições locais — entre elas, barragens subterrâneas, barreiros-trincheira, reúso de águas residuais, viveiros de mudas nativas e casas comunitárias de sementes crioulas. Essas iniciativas contribuem para recuperar áreas degradadas e, ao mesmo tempo, fortalecer a segurança hídrica, a segurança alimentar e a geração de renda.
Esse tipo de abordagem está diretamente relacionado ao conceito de sociobioeconomia: um modelo que busca conciliar a conservação da biodiversidade, a valorização dos conhecimentos locais e o desenvolvimento econômico e social, em vez de tratar esses objetivos como concorrentes entre si.
Como a VBIO conecta recursos e projetos
Para que iniciativas de restauração e sociobioeconomia ganhem escala, é necessário aproximar projetos qualificados de empresas, financiadores e organizações interessadas em gerar impacto socioambiental. É nesse ponto que a VBIO atua, conectando empresas e organizações a projetos voltados à conservação da biodiversidade e ao desenvolvimento socioeconômico. A plataforma realiza a curadoria de iniciativas, apoia a estruturação dos projetos e acompanha sua execução e seus resultados.
A VBIO trabalha com projetos relacionados a temas como conservação da biodiversidade, segurança alimentar, disponibilidade hídrica, desenvolvimento comunitário, valorização dos conhecimentos tradicionais e empoderamento feminino. Essa conexão ajuda a transformar recursos destinados a iniciativas socioambientais em projetos estruturados, com acompanhamento, transparência e resultados que podem ser monitorados.
Da meta brasileira ao impacto no território
A meta brasileira de Neutralidade da Degradação da Terra mostra a dimensão do compromisso assumido pelo país, mas também escancara o tamanho do desafio de execução, considerando o histórico de atraso na sua formalização. Para que esses números se transformem em resultados concretos, será necessário fortalecer a conexão entre políticas públicas, empresas, financiadores, organizações da sociedade civil e comunidades locais.
A experiência da sociobioeconomia mostra que conservação e desenvolvimento não precisam ser tratados como objetivos opostos. Quando projetos são estruturados considerando as características dos territórios e as pessoas que neles vivem, a restauração pode gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos.
É nesse espaço que plataformas como a VBIO podem contribuir: conectando recursos, conhecimento, territórios e organizações para transformar metas de restauração em projetos concretos e impacto mensurável.
A COP17 coloca a restauração da terra no centro da agenda internacional. No Brasil, o próximo passo é fazer com que esse compromisso chegue ao território, da Caatinga ao Cerrado e aos demais biomas, valorizando a biodiversidade e as comunidades que ajudam a conservá-la.



Comentários