Buriti dos Sertões de Minas: da raiz à conquista coletiva
- VBIO

- 2 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O buriti (Mauritia flexuosa) é uma das árvores mais emblemáticas do Cerrado. Suas folhas, frutos e fibras sustentam vidas, tradições e histórias no norte de Minas Gerais. Mas, para centenas de famílias agroextrativistas, o buriti é também sinônimo de trabalho, renda e esperança de futuro.
Foi com esse olhar que nasceu o projeto Buriti dos Sertões de Minas, uma iniciativa apoiada pelo Grupo Boticário, executada pela Cooperativa Agroextrativista Grande Sertão e coordenada pela VBIO no monitoramento técnico, financeiro e comunicação.
Entre 2023 e 2025, o projeto teve como grande missão fortalecer a cadeia produtiva do buriti, garantindo sustentabilidade, qualidade e valorização para cerca de 600 famílias da região. O resultado foi um marco de transformação social, ambiental e econômica para comunidades que vivem e dependem desse fruto precioso.
O desafio: fortalecer o agroextrativismo e manter o Cerrado em pé
Antes do projeto, muitas famílias enfrentavam grandes obstáculos: pouca infraestrutura, ausência de capacitação técnica, falta de acesso a mercados e dificuldades em garantir a qualidade e a rastreabilidade dos produtos.
O cenário mudou com a chegada do projeto. As ações foram estruturadas em quatro eixos principais:
Fortalecimento da cooperativa e suas parcerias.
Disseminação de boas práticas de manejo e rastreabilidade.
Reforma e modernização da unidade agroindustrial.
Estudos para solicitação de Indicação Geográfica (IG).
Essa combinação de esforços fez nascer uma nova etapa para a cadeia do buriti em Minas Gerais.
Organização e parcerias que geram frutos
Ao longo dos dois anos, a Cooperativa Grande Sertão ampliou seu alcance e fortaleceu sua rede. Foram realizadas 24 reuniões locais em Montes Claros e 12 encontros com parceiros estratégicos, como UNIMONTES, UFMG, CONAB, EMATER, EMBRAPA e MAPA.
A cooperativa também esteve presente em grandes eventos, como o VI Evento Internacional de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas, em Osasco/SP, e a FISPAL Tecnologia, em São Paulo. Essas participações abriram portas para intercâmbios técnicos e para a absorção de novas tecnologias de extração e beneficiamento.
Mais do que conexões, essas ações deram visibilidade ao trabalho coletivo e ajudaram a posicionar o buriti dos sertões mineiros no cenário nacional.
Capacitação e manejo sustentável
Um dos marcos do projeto foi a capacitação direta de 268 agroextrativistas, com foco na conservação dos recursos naturais e no fortalecimento da produção.
As oficinas abordaram:
boas práticas de coleta,
redução do uso do fogo,
incentivo ao uso de matéria orgânica,
manejo sustentável e qualidade dos derivados.
Além disso, foi produzido e distribuído um manual técnico de boas práticas, que hoje serve como referência para os produtores da região.
Foram cadastradas 161 famílias (85% lideradas por mulheres) e mapeados 645 hectares de áreas de coleta. Esse trabalho garantiu rastreamento e monitoramento mais precisos, além de fortalecer o papel das mulheres como protagonistas no extrativismo.
Estruturação da agroindústria
A transformação também chegou à infraestrutura. Em 2024, foram iniciadas as obras de readequação da unidade agroindustrial da cooperativa, totalizando 82 m² reformados.
Em maio de 2025, a obra foi concluída com aquisição de novos equipamentos e materiais. Isso permitiu não apenas melhorar a qualidade do óleo de buriti, mas também abrir novas possibilidades de processamento e comercialização.
Um marco importante foi o envio de amostras para a FUNCAMP, em março de 2025. Os resultados laboratoriais confirmaram a alta qualidade do óleo extraído, reforçando o potencial do produto no mercado.
Indicação Geográfica: identidade e valorização
Outro avanço decisivo foi o início do processo de Indicação Geográfica (IG) do buriti dos Sertões de Minas.
A jovem pesquisadora Júlia de Paula de Oliveira foi selecionada para conduzir o estudo de caracterização da cadeia produtiva. Ela percorreu comunidades, levantou dados e compilou bibliografia sobre a importância cultural, ambiental e econômica do buriti.
O estudo resultou no envio oficial da solicitação de IG, um passo que pode garantir reconhecimento e valorização nacional e internacional ao buriti da região, consolidando a identidade dos sertões de Minas.
Impactos alcançados
Os números refletem a força coletiva que o projeto mobilizou:
268 agroextrativistas capacitados.
161 famílias cadastradas, sendo 85% mulheres.
43 comunidades alcançadas.
645 hectares mapeados para coleta sustentável.
82 m² de usina reformada e equipada.
1 manual técnico de boas práticas publicado.
36 reuniões entre parceiros realizadas.
176% de aumento no volume de produtos entregues à cooperativa.
1 solicitação de registro de Indicação Geográfica submetida.
Além dos números, o maior impacto foi humano: mais autonomia, mais renda e mais reconhecimento para centenas de famílias que hoje enxergam o buriti não apenas como fruto, mas como oportunidade de futuro.
Aprendizados e legado
O projeto enfrentou desafios, como a redução da safra de 2024 devido às mudanças climáticas.
Mas as dificuldades trouxeram aprendizados:
A diversificação do extrativismo, com inclusão de outros frutos do Cerrado, amplia as fontes de renda.
Os intercâmbios técnicos abriram caminhos para novas tecnologias e estratégias de beneficiamento.
O protagonismo feminino se mostrou essencial para a sustentabilidade da cadeia produtiva.
Conclusão: o buriti como símbolo de resistência e esperança
O Buriti dos Sertões de Minas mostrou que é possível unir conservação, geração de renda e valorização cultural em um mesmo caminho. O projeto não apenas fortaleceu a cooperativa e melhorou a vida de centenas de famílias, mas também deixou um legado de conhecimento, organização e perspectiva de futuro.
O buriti, árvore símbolo de resistência do Cerrado, agora se torna também um símbolo de oportunidade e transformação social para o norte de Minas Gerais.
a COP30 — e o futuro sustentável da América Latina.



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